Araxá beira R$ 1 bilhão em 2027
- Gi Palermi
- 10 de jun.
- 5 min de leitura
Projeto que prepara o orçamento do ano que vem prevê R$ 930 milhões, mas levanta dúvidas sobre investimento, controle e transparência.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 não é apenas um documento cheio de tabelas, siglas e palavras difíceis. Ela mostra, antes do orçamento chegar, qual caminho a administração municipal pretende seguir com o dinheiro público no ano que vem.
Por isso, a audiência pública realizada nesta quarta-feira (10.jun.2026) na Câmara Municipal de Araxá foi importante. O analista legislativo Alcameno Alves e Silva fez a apresentação do Projeto de Lei nº 99 de 2026 e esmiuçou os principais pontos da proposta. O subsecretário municipal de Fazenda e Planejamento, José Adriano Barbosa, também esteve presente para tirar dúvidas dos vereadores e da comunidade.
E dúvidas não faltam.
A administração Robson Magela e Bosco Júnior projeta um orçamento de R$ 930 milhões para 2027. É quase R$ 1 bilhão. Um valor muito alto. Um valor que exige responsabilidade, controle e explicação clara. Porque dinheiro público não cai do céu. Ele sai do bolso do cidadão. Sai do imposto pago por quem trabalha, por quem empreende, por quem compra, por quem vende e por quem mantém a cidade funcionando todos os dias.
Por isso, quando aparece um orçamento grande, a primeira pergunta não deve ser: quanto tem? A primeira pergunta deve ser: para onde vai? E é aí que o projeto começa a preocupar.
O orçamento cresce. Mas a previsão de investimento cai. A proposta mostra que as despesas de capital, que estão mais ligadas a obras, melhorias e investimentos estruturais, caem em relação a 2026. Em outras palavras: a gestão Robson-Bosco prevê mais dinheiro no orçamento, mas menos recurso para aquilo que muda a vida da população de forma concreta.
A cidade precisa de asfalto bom. Precisa de unidade de saúde funcionando. Precisa de escola conservada. Precisa de obras bem feitas. Precisa de manutenção. Precisa de planejamento.
Mas, pelo projeto, a máquina pública continua pesada. Muito pesada. A maior parte do dinheiro fica nas despesas correntes: R$ 909,35 milhões. Isso representa quase 98% de todo o orçamento. Ou seja: quase todo o dinheiro previsto para o próximo ano será usado para manter a máquina funcionando.
São despesas do dia a dia. É folha. É custeio. É manutenção da própria estrutura pública. Claro que a cidade precisa funcionar. Servidor precisa receber. Serviço público precisa ser mantido. Mas quando quase tudo vai para manter a máquina, sobra pouco para transformar a cidade.
Esse é o ponto. Não adianta Araxá ter orçamento alto se o cidadão continua enfrentando buraco, fila, falta de remédio, obra parada ou serviço ruim.
Outro ponto que precisa de explicação está nas chamadas “outras receitas correntes”. O projeto prevê um salto enorme na previsão para 2027. Saindo de pouco mais de R$ 1,5 milhão em 2026 para mais de R$ 172 milhões no ano que vem. É uma mudança muito grande. Precisa ser explicada com calma.
Quando uma receita cresce tanto de um ano para o outro, a população tem o direito de saber de onde esse dinheiro virá. Qual é a origem? Qual é a base do cálculo? É previsão segura ou é aposta? Existe contrato? Existe fonte garantida? Existe documento?
Outro ponto sensível é a autorização para abertura de créditos suplementares de até 30% do orçamento.
Traduzindo: depois que o orçamento for aprovado, o Robson-Bosco poderá ter uma margem muito grande para mexer nas dotações. Em um orçamento de R$ 930 milhões, esse percentual representa até R$ 279 milhões de movimentação. É muito espaço para mexer no orçamento depois.
Isso exige debate.
A Câmara não pode aprovar uma autorização ampla demais sem medir as consequências. Porque o orçamento passa pelo Legislativo justamente para ser discutido, fiscalizado e votado. Se depois o Executivo pode mudar muita coisa por decreto, o controle político fica mais fraco.
E controle não é perseguição. Controle é obrigação. Fiscalizar não é atrapalhar a Prefeitura. Fiscalizar é proteger a população.
O projeto também chama atenção nos repasses para entidades sem fins lucrativos. O texto prevê que essas transferências independem de autorização legislativa. Também admite repasses para eventos incluídos no calendário oficial do Município. Esse ponto é delicado.
Araxá já vive um debate sobre dinheiro público em eventos, entidades e projetos. Ninguém aqui está dizendo que toda entidade é errada. Ninguém está dizendo que cultura, esporte, assistência social ou ações comunitárias não merecem apoio. A questão é outra.
Quem recebe dinheiro público precisa prestar contas. Quem repassa dinheiro público precisa explicar. E a Câmara precisa ter condições reais de fiscalizar. Porque recurso público não pode virar favor. Não pode virar moeda política. Não pode virar carimbo automático.
Outro ponto que merece atenção é a possibilidade de remanejamento, transposição e transferência de recursos por decreto. Na prática, isso abre espaço para mudanças internas no orçamento sem nova votação ampla em plenário, dentro dos limites autorizados. Mais uma vez, a pergunta é simples: quanto poder a Câmara vai entregar ao Executivo? Essa é a pergunta que precisa ser feita antes da votação.
A LDO também trata de dívida pública e permite que a Lei Orçamentária de 2027 contenha autorização para operações de crédito. Dívida pode ser necessária em alguns casos. Mas dívida nunca é detalhe. Dívida feita hoje vira conta amanhã. E Araxá já conhece bem esse debate. Por isso, qualquer autorização ligada a empréstimo precisa ser olhada com lupa. A cidade precisa saber quanto pretende tomar, para quê, com qual prazo, com qual juros e com qual impacto nos próximos anos.
O prazo para apresentação de emendas termina no dia 12 de junho. No dia 25 de junho, está prevista a leitura do relatório e a votação em plenário.
Até lá, os vereadores têm uma missão clara. Não basta ouvir a apresentação técnica. Não basta registrar presença. Não basta fazer discurso. É preciso corrigir o que estiver errado. É preciso fechar brechas. É preciso exigir memória de cálculo. É preciso limitar autorizações amplas demais. É preciso garantir mais transparência nos repasses. É preciso proteger o papel fiscalizador da Câmara.
A população não acompanha tabela por tabela. Mas sente no bolso e na vida quando o dinheiro público é mal planejado. Sente na fila da saúde. Sente na rua esburacada. Sente na escola sem estrutura. Sente quando falta remédio. Sente quando sobra propaganda e falta entrega.
A LDO de 2027 precisa ser tratada com seriedade. Não como simples etapa burocrática. Não como texto para passar rápido. Não como projeto técnico que ninguém entende. Porque, no fim das contas, a LDO diz uma coisa muito simples: qual será a prioridade de Robson-Bosco.
E a prioridade deve ser o cidadão. Não a máquina. Não os interesses políticos. Não os eventos. Não os decretos. Não o cheque em branco. Araxá não precisa apenas de um orçamento grande. Araxá precisa de um orçamento claro, responsável e fiscalizado.
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