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Audiência escancara dor e descaso

  • Foto do escritor: Gi Palermi
    Gi Palermi
  • 15 de abr.
  • 3 min de leitura

Só três dos 15 vereadores participaram de debate sobre os atrasos nos repasses à Santa Casa e à Casa do Caminho; funcionários relataram dívidas, juros e desespero.


Em Araxá, o atraso dos repasses da saúde já deixou de ser só um problema administrativo. Virou sofrimento humano. E uma audiência pública realizada nesta quarta-feira (15.abr.2026), na Câmara Municipal, escancarou a verdade nua e crua: quem trabalha para cuidar da saúde dos outros está adoecendo por causa da insegurança sobre o próprio salário.


O encontro foi convocado para discutir os repasses em atraso destinados à Santa Casa de Misericórdia de Araxá e à Casa do Caminho. Um tema grave. O convite foi feito com antecedência. A comunidade foi chamada. Autoridades envolvidas também. Mesmo assim, o que se viu foi um retrato de abandono.


Faltaram nomes que deveriam estar ali para dar explicações. Faltou respeito com a Câmara. Faltou respeito com os trabalhadores. Faltou respeito com a população. Quando uma crise dessas atinge hospitais, funcionários e pacientes, não aparecer é mais do que ausência. É sinal de desprezo.


A própria participação no Legislativo também foi baixa. Dos 15 vereadores, apenas três estiveram presentes: os autores do requerimento Maristela Dutra e Professor Jales, e Marciony Sucesso. Justificaram ausência Raphael Rios, Fernanda Castelha, Kaká da Mercearia e Chicão Jesus Te Ama. Os demais vereadores não apresentaram justificativa de ausência. O esvaziamento pesou. E pesou ainda mais porque o assunto não era pequeno. Era salário atrasado. Era saúde pública. Era gente no limite.


Mas o ponto mais forte da audiência não veio das formalidades. Veio da dor de quem vive o problema.


O relato foi claro: há trabalhadores que cumprem os 30 dias de serviço e só recebem dois ou até três meses depois. Nesse intervalo, as contas vencem, os juros correm e o desespero cresce. Cartão atrasa. Empréstimo aumenta. Juros correm. Aluguel aperta. Água e luz acumulam. Isso não é detalhe burocrático. Isso é violência contra o trabalhador.


A funcionária do centro cirúrgico da Casa do Caminho, Pérola Caroline da Silva Santos, colocou essa realidade em palavras simples e fortes. Disse que todo mês a história se repete. Falta clareza. Falta resposta. Falta consideração. Contou que precisou fazer empréstimo para pagar aluguel. E essa fala resume bem o tamanho da crueldade.


A vereadora Maristela Dutra apresentou fundamentos legais para os repasses do SUS e expôs que o modelo de pagamento adotado pela administração Robson Magela e Bosco Júnior seria mais burocrático e mais lento. A crítica central é que, em vez de buscar uma forma mais previsível e compatível com um serviço contínuo, a gestão insiste num mecanismo que ajuda a empurrar atrasos mês após mês.


No fim das contas, a discussão deixa uma pergunta incômoda: até quando a administração Robson-Bosco vai tratar uma área tão sensível com esse mesmo modo de agir, lento, desgastante e repetitivo? Porque o problema não começou ontem. E a desculpa também não.


A audiência ainda mostrou que pressão funciona. Os valores atrasados foram repassados à Santa Casa e à Casa do Caminho na tarde anterior, permitindo o início dos pagamentos. Ou seja: quando o debate aperta, o dinheiro aparece. Isso só torna tudo ainda mais revoltante.


Hospital não funciona com promessa. Funcionário não paga conta com justificativa. Paciente não pode esperar no ritmo da burocracia. Quando o poder público falha desse jeito, a corda arrebenta sempre do lado mais fraco. E, em Araxá, ela está arrebentando em cima de quem trabalha para salvar vidas e de quem depende da saúde para continuar vivendo.

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