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Cidadão não precisa de mandato

  • Foto do escritor: Gi Palermi
    Gi Palermi
  • 1 de mai.
  • 3 min de leitura

Criticar gasto público não exige candidatura. Exige ser cidadão, pagar impostos e não aceitar silêncio imposto pelo poder.


Durante a convocação realizada em 30 de abril na Câmara Municipal de Araxá para discutir o empréstimo de até R$ 50 milhões pretendido pela administração Robson Magela e Bosco Júnior para obras de asfalto, o vereador Marciony Sucesso expôs um pensamento que não pode passar em branco.


Ao reagir às críticas feitas por cidadãos sobre o uso do dinheiro público, o vereador tentou reduzir o direito de cobrança a uma condição absurda. Segundo ele, só teria direito de criticar quem coloca o nome à disposição nas urnas.


“Às vezes, lá fora, é fácil a gente criticar quem tá aqui dentro. Mas sentar aqui... Igual, já fui criticado. Falei pro cara: ‘Candidate, vai lá.’ Ele falou: ‘Nunca.’ Então você não pode reclamar. E da mesma forma foi que eu entrei na política, né? Porque alguém falou: ‘Marciony, por que que você não participa?’ Falei: ‘Ah, não. Não tenho vocação para isso.’ Ele falou: ‘Então você para de reclamar hoje, porque, para você reclamar, você tem que participar, né?’”


A ideia defendida nesse pronunciamento é grave. E não para em pé.


Cidadão não precisa ser candidato para cobrar vereador. Não precisa disputar eleição para questionar prefeito. Não precisa ter mandato para perguntar como o dinheiro retirado do próprio bolso, por meio dos impostos, está sendo usado.


Ele já participa da vida pública quando trabalha, paga imposto, vota, espera atendimento na saúde, anda por ruas esburacadas, passa por calçadas escuras, vê problemas por todos os lados, cobra serviço e exige resposta.


Mandato não cala


O mandato não transforma o eleito em dono da cadeira. O mandato é empréstimo do povo. É autorização temporária para representar a população. Não é escudo contra crítica.


A eleição não assina um contrato de silêncio por quatro anos. Pelo contrário. Depois da eleição, a cobrança aumenta. Porque o dinheiro continua saindo do bolso do cidadão.


Os impostos não perguntam se a pessoa é candidata. O imposto chega ao trabalhador, ao aposentado, ao comerciante, à mãe de família e ao jovem que compra qualquer produto no mercado. Todos pagam. Portanto, todos podem cobrar.


Dizer que só tem direito de criticar quem se candidata é inverter completamente a democracia. Quem ocupa cargo público é que deve explicação. Quem recebe salário público é que deve prestar contas. Quem vota projeto, aprova despesa, fiscaliza ou deixa de fiscalizar precisa responder à sociedade. O político serve à sociedade. Não é a sociedade que serve ao político.


Crítica é direito


Se a crítica é injusta, apresente dados. Se a crítica é falsa, conteste com provas. Se a crítica é dura, responda com trabalho. Mas tentar desqualificar o cidadão porque ele não entrou na disputa eleitoral é uma saída fraca.


A Câmara Municipal não é lugar para constranger a população. É lugar para ouvir a população. O cidadão comum não tem obrigação de se filiar a um partido, montar campanha, pedir voto, gastar dinheiro, montar equipe e enfrentar eleição para ter o direito de reclamar.


Ele tem esse direito porque vive na cidade. Porque paga a conta. Porque sente na pele as decisões tomadas por quem está no poder. A política não pertence apenas aos políticos. A política mexe com a vida de todo mundo.


Quando um vereador sugere que o cidadão precisa se candidatar para poder criticar, ele diminui a própria razão de existir do mandato. Porque vereador existe para representar o povo, não para exigir que o povo se cale.


No fim, a pergunta é simples: se o cidadão não pode cobrar, quem pode?


Democracia sem cobrança vira encenação. Mandato sem fiscalização vira privilégio. E dinheiro público sem crítica vira caminho aberto para abuso.


Em Araxá, ninguém precisa pedir licença a vereador para fiscalizar como está sendo usado o dinheiro que sai do seu bolso e vai para os cofres públicos.

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