Robson-Bosco quer empréstimo para recapeamento
- Gi Palermi
- 30 de abr.
- 3 min de leitura
PL 84 prevê financiar R$ 50 milhões por até 10 anos, mas empréstimo pode chegar a R$ 98 milhões com encargos; audiência expôs dúvidas sobre custo, dívida e prioridade.
Araxá tem buraco demais. Isso ninguém nega. O problema está nas ruas dos bairros, no caminho de ida e volta do trabalho, de quem leva filho à escola, procura atendimento médico ou simplesmente tenta circular pela cidade.
Mas, para tentar resolver o problema, a administração Robson Magela e Bosco Júnior quer autorização da Câmara Municipal para contratar uma operação de crédito de até R$ 50 milhões com a Caixa Econômica Federal. O dinheiro seria usado em obras de recapeamento e pavimentação asfáltica em diversas vias de Araxá, dentro do programa chamado “Asfalto Novo”. O Projeto de Lei nº 84 de 2026 está em tramitação na Câmara.
E ele não trata apenas de asfalto. Trata de dívida pública. E é aí que a discussão muda de tamanho.
Por que uma cidade que arrecada R$ 700 milhões por ano precisa pegar dinheiro emprestado para fazer asfalto?
Essa foi uma das cobranças feitas em uma reunião de convocação realizada na Câmara Municipal nesta quinta-feira (30.abr.2026). O encontro foi solicitado pelos vereadores Roberto do Sindicato, Maristela Dutra e Professor Jales. Participaram secretários da administração e representantes jurídicos do município.
Promessa bonita
A promessa é bonita. Recuperar ruas. Melhorar a mobilidade. Reduzir tapa-buracos. Dar mais segurança aos motoristas. O secretário municipal de Obras, Gustavo Eurípedes de Lima, afirmou que Araxá tem cerca de 550 quilômetros de vias e uma malha antiga. Segundo ele, o recapeamento seria uma solução mais duradoura do que o tapa-buraco, que custa caro e resolve pouco.
O ponto central não é ser contra o asfalto. Ninguém sério pode ser contra rua em boas condições. O problema é a conta. Os documentos apresentados pela própria administração apontam que o financiamento de R$ 50 milhões pode chegar a quase R$ 98 milhões ao fim do contrato, somando encargos. A carência seria de 12 meses e a amortização ocorreria em 108 parcelas.
Na prática, a gestão atual contrata a obra, mas parte pesada da conta ficará para os próximos anos. Ou seja: o prefeito, que está no segundo mandato, deixará a dívida para a próxima administração.
Conta futura
A vereadora Maristela Dutra chamou atenção para outro ponto importante. Os R$ 50 milhões atenderiam cerca de 50 quilômetros de vias. Araxá tem aproximadamente 550 quilômetros de malha viária. Portanto, a obra alcançaria algo próximo de 10% da demanda. É muito dinheiro para uma solução parcial. Se a vida útil média do asfalto é de 8 a 15 anos, existe o risco de parte desse pavimento voltar a exigir recapeamento antes mesmo de o município terminar de pagar a dívida.
O vereador Roberto do Sindicato questionou justamente a falta de gestão. Ele apontou a contradição política. A administração fala em crise, cofres apertados e dificuldade financeira. Ao mesmo tempo, quer assumir uma dívida milionária. A mesma gestão que enfrenta cobranças por atrasos recorrentes de repasses à Santa Casa e à Casa do Caminho agora pede autorização para financiar asfalto por quase uma década.
Professor Jales também lembrou que a própria administração já informou ao Tribunal de Contas ter feito cerca de 120 quilômetros de recapeamento no primeiro mandato, sem empréstimo. Se antes houve obra com planejamento e recurso próprio, por que agora a saída precisa ser dívida?
Critério técnico
A gestão Robson-Bosco afirma que o programa terá critérios técnicos. Diz que serão priorizadas vias com maior fluxo, transporte público, tráfego pesado e bairros com maior densidade populacional. Também informou que o programa inclui nova capa asfáltica, drenagem superficial, remendos profundos e sinalização.
Mas critério técnico precisa vir acompanhado de transparência. A população precisa saber quais ruas serão atendidas, qual será o cronograma, qual será o custo por trecho, quais alternativas foram estudadas e por que o empréstimo foi escolhido como melhor caminho.
Porque empréstimo é dívida pública. E quem paga é o cidadão.
Bolso do cidadão
Araxá precisa de asfalto. Precisa de ruas dignas. Precisa parar de jogar dinheiro fora em tapa-buraco que a chuva leva embora. Mas também precisa de responsabilidade com o futuro. Obra mal planejada vira retrabalho. Asfalto que não dura vira desperdício. E promessa feita com dinheiro emprestado pode virar conta salgada para quem nem participou da decisão.
O PL 84 pode até vestir a roupa bonita do “Asfalto Novo”. Mas, antes da votação, a Câmara tem obrigação de olhar por baixo da camada de asfalto. Porque o que está em jogo não é só a rua de hoje. É o bolso do cidadão pelos próximos anos.
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