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Robson-Bosco busca culpados

Foto do escritor: Gi Palermi
Gi Palermi
há 6 dias
4 min de leitura

Derrota de Heringer e Bosco abre caça aos culpados, enquanto administração mira adversários e evita encarar problemas e cobranças de frente.


O primeiro turno das eleições terminou. E o resultado deixou duas derrotas importantes para o grupo político que comanda Araxá. Bosco não conseguiu renovar o mandato na Assembleia Legislativa. Recebeu 72.056 votos e ficou a apenas 200 votos da última vaga conquistada pelo PSD. Mário Heringer também não conseguiu retornar à Câmara dos Deputados. Teve 75.782 votos em Minas, sendo 9.717 em Araxá.


Durante a campanha, a administração Robson Magela e Bosco Júnior colocou seu peso político na defesa da dupla. E um dos argumentos repetidos para justificar essa parceria era conhecido dos araxaenses: recursos, emendas, investimentos e portas abertas em Belo Horizonte e Brasília.


De fato, houve recursos. Só em 2026, a administração anunciou mais de R$ 3,4 milhões indicados por Mário Heringer para a saúde. Também divulgou um programa de recapeamento composto por recursos municipais, financiamento bancário e emendas atribuídas a Heringer e Bosco. Portanto, não se trata de negar que os deputados tenham destinado recursos a Araxá. A discussão é outra.


É razoável transformar isso em argumento para exigir do eleitor a manutenção dos mesmos nomes no poder? E, principalmente, depois da derrota, é razoável responsabilizar quem também decidiu disputar legitimamente uma eleição?


Caça aos culpados


Terminada a apuração, começou outra disputa.


Nos grupos de mensagens, esta segunda-feira (05.out.2026) foi marcada por discussões, cobranças e acusações. Parte da insatisfação se voltou justamente contra candidatos de Araxá que ousaram apresentar seus próprios nomes ao eleitor.


Para a Câmara dos Deputados, Fanny Melo, Inspetor Mauro Chaves, Maristela Dutra e Pedrinho da Mata concorreram por Minas. Para a Assembleia, também estiveram na disputa Maria Laura Simão, Omara Paolinelli e Professor Jales.


Para aliados da administração, essas candidaturas teriam dividido votos que poderiam ter ajudado Bosco e Heringer.


É uma explicação matematicamente possível. Mas, politicamente, é confortável demais. Porque transfere para os outros uma responsabilidade que talvez também precise ser procurada dentro de casa.


Candidatura não é traição. Eleição não é reserva de mercado. Nenhum cidadão precisa pedir autorização a um grupo político para colocar seu nome à disposição do eleitor. Ninguém tem obrigação de abandonar um projeto partidário ou político para preservar o mandato de quem já ocupa uma cadeira.


E existe uma questão ainda mais simples: voto não pertence previamente a ninguém. O voto dado a Fanny, Mauro, Maristela ou Pedrinho não era um voto de Heringer que alguém retirou dele. Da mesma maneira, o voto dado a Jales, Omara ou Maria Laura não pertencia previamente a Bosco. Pertencia ao eleitor. Foi o eleitor quem decidiu onde colocá-lo.


Olhem para dentro


Talvez seja exatamente aí que a administração Robson-Bosco precise começar sua reflexão.


Antes de procurar culpados entre aqueles que tiveram a coragem de disputar uma eleição, seria mais útil olhar para dentro da própria gestão. Olhar para aquilo que foi prometido. Olhar para aquilo que foi entregue. E, principalmente, olhar para aquilo que ainda falta entregar. Porque eleição também é julgamento de governo.


O cidadão pode até reconhecer o trabalho de um deputado. Pode agradecer uma emenda. Pode considerar importante ter interlocutores em Belo Horizonte ou Brasília. Mas, quando chega à urna, ele também se lembra da rua onde mora. Do caminho que percorre todos os dias. Do buraco que desviou ontem, anteontem e provavelmente terá de desviar amanhã.


Lembra do posto de saúde. Do atendimento que esperou. Do medicamento que faltou. E aí o discurso dos milhões encontra a vida real.


Não basta dizer que o dinheiro chegou. Não basta divulgar fotografia, reunião, ofício, anúncio de emenda ou visita a Brasília. Dinheiro público precisa virar serviço público.


Existe uma realidade muito mais complexa do que o discurso eleitoral dos “parceiros que mandam dinheiro”. Porque, se os parceiros são tão fortes, se os recursos são tantos e se as emendas são tão fundamentais, a pergunta que sobra é inevitável: por que problemas tão básicos continuam batendo à porta do cidadão?


Emenda não compra voto


Existe ainda outro ponto que precisa ser lembrado. Emenda parlamentar não é presente de deputado. Não sai do bolso de Bosco. Não sai do bolso de Heringer. É dinheiro arrecadado da própria sociedade por meio de impostos e tributos e devolvido, por meio do orçamento, para financiar políticas públicas.


O parlamentar merece ser cobrado pelo trabalho que faz para trazer recursos. É legítimo apresentar esse trabalho ao eleitor. Mas daí a tratar o recurso enviado como uma espécie de dívida eleitoral existe uma enorme diferença.


O cidadão não recebe uma emenda e passa a dever quatro anos de voto. O eleitor não assina recibo de fidelidade política. Ele pode agradecer o recurso numa eleição e escolher outro candidato na eleição seguinte. Isso se chama democracia.


Pergunta incômoda


Talvez seja mais fácil dizer que Bosco perdeu porque outros candidatos dividiram votos. Talvez seja mais confortável afirmar que Heringer não voltou para Brasília porque houve candidatos locais disputando o mesmo eleitorado.


Difícil é fazer a pergunta que realmente incomoda. Se a administração Robson-Bosco considera Heringer e Bosco parceiros tão importantes, se acredita que os recursos trazidos pelos dois foram tão decisivos para Araxá, se colocou sua força política nessa dobradinha e trabalhou para convencer a população disso, por que não conseguiu transformar esse discurso em votos suficientes?


Essa reflexão precisa começar dentro do próprio governo. A resposta pode estar nos buracos que apareceram no caminho. Nos medicamentos que faltaram. Nos médicos que cobraram o pagamento de salários. Nos hospitais que enfrentaram dificuldades financeiras. Nas promessas que ainda esperam para virar realidade.


Antes de procurar quem “tirou votos” de Bosco ou Heringer, a administração deveria perguntar por que esses votos não foram conquistados. É bem diferente. Porque ninguém rouba voto que nunca teve. E nenhuma emenda parlamentar transforma eleitor em propriedade política.


No fim, talvez as urnas tenham deixado uma pergunta muito mais importante do que a busca por culpados: com tantos parceiros, tantas emendas, tantos milhões anunciados e tanto poder político reunido, o que a administração Robson-Bosco efetivamente entregou ao cidadão para convencê-lo de que essa parceria precisava continuar?

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