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Santa Casa pede socorro por dentro

  • Foto do escritor: Gi Palermi
    Gi Palermi
  • há 3 minutos
  • 5 min de leitura

Funcionários denunciam altos salários na gestão, falta de insumos e tensão interna; direção culpa atrasos nos repasses do SUS e nega abandono.


A crise da Santa Casa de Misericórdia de Araxá deixou de ser apenas um problema de repasse, convênio ou atraso administrativo. Agora, funcionários do próprio hospital apontam uma ferida interna: a diferença entre os salários pagos a cargos de gestão e a realidade dura vivida por quem está na ponta.


Além dos recorrentes atrasos salariais, os profissionais alertam que a Santa Casa enfrenta falta de insumos, problemas com fornecedores e falhas na alimentação de pacientes. A denúncia é grave. E exige resposta pública.


Os funcionários enviaram documentos que, segundo eles, foram disponibilizados pela própria diretoria em grupos internos de mensagens. A folha apresentada é referente ao período de 1º a 31 de dezembro de 2025 e trata do 13º salário. Nela, aparecem bases mensais elevadas em setores administrativos. Na Administração Geral, há valores como R$ 21.091,56, R$ 15.773,38 e R$ 13.657,81. O total mensal do setor aparece em R$ 111.442,53.


O ponto central da denúncia não é defender que ninguém ganhe pouco. O ponto é outro. Como um hospital que vive majoritariamente do SUS consegue sustentar uma estrutura administrativa com salários tão altos?


Segundo uma das fontes, há cargos de coordenação e gestão com salários acima de R$ 10 mil, R$ 14 mil e até R$ 21 mil. A mesma fonte questiona se alguns desses cargos exigem, de fato, formação superior compatível com a responsabilidade e a remuneração. Essa informação precisa ser esclarecida oficialmente. Mas a pergunta é legítima.


Enquanto isso, profissionais que seguram o hospital funcionando dizem estar no limite. Enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e outros trabalhadores relatam angústia. Alguns, segundo uma fonte, estariam vendendo objetos pessoais para colocar comida dentro de casa.


A pergunta é simples. A prioridade da Santa Casa está onde? No paciente? No profissional da ponta? Ou numa estrutura de cargos que parece pesada demais para um hospital em crise?


O outro lado


O superintendente Ivan José da Silva, gestor da Santa Casa e também da Casa do Caminho, apresentou a versão da direção. Ele explicou que a maior parte da receita de ambos os hospitais vem do SUS. Na Santa Casa, cerca de 82%. Na Casa do Caminho, cerca de 95%. Esses recursos vêm das três esferas: União, Estado e Município. Quando não entram no começo do mês, a folha de pagamento sente o impacto direto.


Segundo o gestor, neste mês os repasses não vieram todos de uma vez. Houve entrada de recursos na primeira semana e na segunda. Na terceira semana, segundo ele, não entrou nada. Agora, na quarta semana, há previsão de novos repasses.


Ivan confirmou que cerca de 90 funcionários ainda permaneciam sem receber o salário de abril até esta segunda-feira (25.mai.2026). Ele afirmou que a decisão da direção foi começar os pagamentos pelos menores salários. Segundo ele, os que ainda estão sem receber são, em grande parte, profissionais de nível superior e funcionários ligados à administração.


Essa explicação corrige um ponto importante. A denúncia dos funcionários não é de que o setor administrativo tenha recebido antes ou tenha sido privilegiado no pagamento. A crítica é outra. Eles questionam se salários altos em cargos administrativos e de gestão não tornam a folha pesada demais para a realidade financeira do hospital.


Sobre os altos salários, Ivan afirmou que há cinco pessoas na gestão com remuneração de mercado. Disse também que ele próprio atua como pessoa jurídica, por meio de uma empresa de gestão, e que só recebe depois que todos os funcionários são pagos.


Em relação aos fornecedores e insumos, o superintendente negou uma situação de abandono. Disse que trabalha com três fornecedores estratégicos e que algumas faltas são temporárias, causadas por atraso de entrega. Quando isso ocorre, segundo ele, o hospital pede material emprestado a outros hospitais da cidade e depois repõe.


Sobre alimentação, Ivan afirmou desconhecer falta de comida para pacientes. Disse que, se isso tivesse acontecido, a informação chegaria a ele. Reconheceu apenas um caso pontual envolvendo uma dieta específica de um paciente da Casa do Caminho. Segundo ele, houve falha de logística, mas a dieta foi buscada no mesmo dia.


Ivan também disse que o hospital banca dietas enterais e parenterais sem receber do SUS por esse serviço, porque não possui habilitação específica. Para receber, seria necessário ter médico nutrólogo responsável. Segundo ele, esse profissional é difícil de contratar e teria custo alto para a realidade da instituição.


O gestor também afirmou que está buscando linhas de crédito para regularizar a folha. Segundo ele, no ano passado, o hospital conseguia antecipar recursos em bancos, pagar os salários e recompor o valor quando os repasses entravam. Neste ano, essas linhas ainda não foram liberadas.


Ivan ainda apontou outro problema: a defasagem dos valores pagos pelo SUS. Segundo ele, a Santa Casa ampliou atendimentos nos últimos anos, mas a receita não acompanhou os custos. Ele citou aumento de salários, medicamentos e materiais hospitalares, além da demora para habilitação de serviços e liberação de recursos federais.


Transparência é obrigação


A versão do gestor traz contexto. Mostra que o problema financeiro existe. Mostra que o SUS pesa muito na receita. Mostra que atraso de repasse vira atraso de salário. Também nega parte das denúncias sobre insumos e alimentação.


Mas a resposta não encerra o debate.


A Santa Casa não é uma empresa qualquer. Ela atende gente pobre, doente e sem alternativa. Ela recebe dinheiro público. Ela carrega o nome da misericórdia. E misericórdia não pode ser só placa na fachada. Precisa aparecer no cuidado com o paciente e no respeito com o trabalhador.


Quando cerca de 90 funcionários ainda estão sem receber, há sofrimento real. A geladeira não espera. O aluguel não espera. O cartão não espera. O filho em casa não espera. Para quem depende do salário, pouco importa se o dinheiro atrasou na União, no Estado, no Município ou na burocracia bancária.


Também não basta dizer que salários de gestão são “de mercado”. É preciso mostrar. Mostrar quais são os cargos. Quais são as funções. Quais são as exigências técnicas. Qual formação é exigida. Quanto custa a gestão. Quanto custa a assistência. Quanto entra. Quanto sai. Quanto vai para folha. Quanto falta para o hospital respirar.


A crise da Santa Casa tem muitas causas. O SUS paga mal. A burocracia atrasa. A Prefeitura, o Estado e a União precisam ser cobrados. Mas isso não elimina a obrigação da direção de prestar contas com clareza.


Porque, no fim, quem paga primeiro é sempre o mais fraco.


É o funcionário sem salário. É o paciente inseguro. É a família que chega ao hospital com medo. É Araxá, que depende da Santa Casa e não pode assistir calada a esse pedido de socorro vindo de dentro.

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