Vereadores aprovam dívida do asfalto
- Gi Palermi
- há 3 dias
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PL 84 autoriza empréstimo de até R$ 50 milhões com a Caixa; oposição questiona custo, prazo e prioridade da gestão.
Sem surpresa, a Câmara Municipal de Araxá aprovou, nesta quinta-feira (21.mai.2026), o Projeto de Lei nº 84 de 2026. A proposta autoriza a administração Robson Magela e Bosco Júnior a contratar até R$ 50 milhões em empréstimo com a Caixa Econômica Federal.
A reunião extraordinária foi convocada exclusivamente para isso. E o resultado já era previsível. A gestão tem maioria absoluta na Casa. O projeto passou por 12 votos a 3.
Votaram a favor Alexandre Irmãos Paula, Chicão Jesus Te Ama, Fernanda Castelha, Garrado, Investigador Rodrigo, Jairinho Borges, João Paulo da Filomena, João Veras, Kaká da Mercearia, Marciony Sucesso, Raphael Rios e Rodrigo do Comercial Aeroporto. Votaram contra Maristela Dutra, Professor Jales e Roberto do Sindicato.
O ponto central do debate não foi se Araxá precisa de asfalto. Precisa. Ninguém tem dúvidas. A cidade está cheia de buracos. Morador reclama. Vereador cobra. Motorista sofre. A questão é outra: por que a cidade chegou a esse ponto? E por que a saída escolhida agora é uma dívida que pode chegar perto de R$ 100 milhões?
Antes da votação do projeto, os vereadores analisaram duas emendas.
A primeira, de Alexandre Irmãos Paula, foi aprovada por 14 votos a zero. Ela reserva até 10% do valor do financiamento para as estradas vicinais. Araxá tem cerca de 1.153 quilômetros de estradas rurais. A proposta busca atender quem mora no campo, trabalha na zona rural ou depende dessas vias para escoar produção.
A segunda emenda, de Roberto do Sindicato, teve outro destino. Ela exigia garantia da União e previa que o empréstimo fosse quitado até o fim do atual mandato. A ideia era impedir que a próxima gestão herdasse a conta. Foi rejeitada por 12 votos a 3.
Na discussão do PL, Professor Jales foi direto ao ponto. Segundo ele, dados levantados pelo próprio governo demonstram que teria sido orçado R$ 138 milhões para asfalto, mas foram pagos apenas R$ 49 milhões. Ou seja, a administração deixou de investir cerca de R$ 88 milhões. Para o vereador, o problema não é o programa “Asfalto Novo”. O problema é transformar falta de prioridade e falta de planejamento em endividamento.
Maristela Dutra também reforçou que ninguém é contra recapeamento. Ela lembrou que Araxá inteira reclama de buracos. Mas chamou atenção para um ponto que precisa ficar claro: o projeto não vai refazer a cidade inteira. Araxá tem cerca de 550 quilômetros de vias. O PL fala em até 50 quilômetros. Ou seja, algo próximo de 10% da malha viária. Para a vereadora, estão vendendo o “Asfalto Novo” como se fosse uma grande reconstrução da cidade. Mas não é disso que se trata. Além disso, o custo estimado fica em torno de R$ 1 milhão por quilômetro. Um valor alto, que só se justificaria com obras bem feitas, drenagem, estrutura e fiscalização séria.
E é aí que mora o ponto mais sensível.
O documento enviado pela própria administração informa que o financiamento será de até R$ 50 milhões. Mas o parecer técnico fala em juros de 20,17% ao ano. Também aponta que, ao final de dez anos, a dívida pode chegar a R$ 97.982.134,75.
Em português claro: Robson-Bosco pede autorização para pegar R$ 50 milhões. Mas o cidadão poderá pagar quase R$ 98 milhões ao longo dos anos.
A administração vende o projeto como o maior programa de recapeamento da história de Araxá. Mas a Câmara não existe para carimbar discurso bonito. Existe para perguntar, fiscalizar e proteger o dinheiro do pagador de impostos.
Araxá precisa de asfalto. Isso é óbvio. Mas também precisa de gestão, planejamento e responsabilidade com o futuro. Buraco na rua incomoda hoje. Dívida mal explicada pode pesar por muitos anos.
Nesta quinta-feira, a maioria da Câmara autorizou o empréstimo. O asfalto pode vir. A conta também.
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