Bosco e o preço das escolhas
Da tentativa de ingresso no PL às disputas por espaço político em Araxá, a derrota de Bosco expõe os limites dos cálculos eleitorais.
A política tem dessas coisas. Durante anos, um grupo constrói alianças, negocia apoios, movimenta suas peças e faz contas. Tudo na certeza de que tem o jogo sob controle. Até que chega o eleitor, entra na cabine de votação e mostra que a última palavra continua sendo dele.
O primeiro turno, em 4 de outubro, deixou essa lição para o deputado estadual Bosco, que tentava conquistar seu quinto mandato consecutivo na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Depois de 16 anos ocupando uma cadeira em Belo Horizonte, Bosco recebeu 72.056 votos e ficou de fora. Perdeu a última vaga do PSD para Tito Torres por uma diferença de apenas 200 votos.
Uma derrota apertada. Mas que merece uma análise mais profunda do que a simples explicação de que outros candidatos de Araxá dividiram os votos. Para entender o resultado, é preciso voltar às escolhas feitas antes da eleição.
Porta fechada
Durante as articulações partidárias, Bosco percebeu que precisava deixar o Cidadania, partido de esquerda ao qual seu aliado, o prefeito Robson Magela, continua filiado.
Sua primeira tentativa foi entrar no PL, partido que se tornou uma das maiores forças eleitorais do país graças ao movimento político liderado por Jair Bolsonaro. A estratégia era simples. Disputar por um partido com muitos votos aumentaria suas chances de conquistar uma cadeira na Assembleia.
Mas havia uma contradição nessa escolha. Bosco construiu sua carreira como um político de centro. Foi vice-líder do governo de esquerda de Fernando Pimentel, do PT, e também do governo de centro-direita de Romeu Zema, do Novo. Transitou por governos diferentes, sem compromisso com uma única corrente política. Sua trajetória não é a da direita conservadora que encontrou sua liderança em Bolsonaro.
Mesmo assim, procurou espaço justamente no partido que hoje reúne uma grande parcela dos eleitores conservadores. Só que encontrou resistência de deputados ligados ao bolsonarismo. Sua entrada no PL foi barrada.
Sem conseguir a legenda desejada, Bosco acabou no PSD, partido de centro que reunia deputados experientes e uma disputa acirrada pelas vagas. E esse caminho teve consequências. O PL conquistou 21 cadeiras na Assembleia Legislativa. O PSD ficou com nove.
Isso não significa que Bosco teria sido eleito pelo PL. Mas mostra que a escolha do partido pode pesar tanto quanto os votos recebidos pelo candidato. Bosco teve 1.249 votos a mais do que em 2022. Mesmo assim, perdeu o mandato. A matemática eleitoral não acompanhou seus planos.
Relação com Araxá
Há outro episódio que ajuda a entender as dificuldades dessa aproximação com a direita. O deputado estadual Cristiano Caporezzo, um dos nomes conhecidos do bolsonarismo no Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba, destinou emendas parlamentares para Araxá a pedido de Omara Paolinelli. Mas a relação entre o deputado e a administração Robson Magela e Bosco Júnior nunca foi amistosa.
Em diferentes ocasiões, a entrega de melhorias feitas com esses recursos encontrou resistência da administração municipal. Um exemplo foi a emenda destinada à compra de uma ambulância para o atendimento de urgência e emergência.
A Prefeitura demorou a comprar e entregar o veículo. A entrega acabou acontecendo em período eleitoral, quando Caporezzo não pôde participar do ato nem apresentar pessoalmente à população o resultado de seu trabalho.
O fato levanta uma pergunta: por que tanta dificuldade para reconhecer uma conquista que beneficiaria os próprios moradores de Araxá? Afinal, o dinheiro público não pertence ao prefeito, ao deputado ou a qualquer grupo político. Pertence ao contribuinte.
O episódio também mostra que a disputa política vai muito além da contagem de votos. Envolve o reconhecimento do trabalho de outras lideranças e o espaço que cada grupo aceita dividir. E aqui aparece outra contradição.
Enquanto Bosco buscava uma aproximação com o eleitorado bolsonarista, o grupo político do qual faz parte mantinha uma relação difícil justamente com Caporezzo, uma das lideranças desse movimento na região.
Agora, Caporezzo é deputado federal eleito. Ao dificultar essa aproximação política, o grupo Robson-Bosco pode ter perdido uma oportunidade de construir uma ponte com uma liderança que ampliou sua força entre os conservadores. Uma escolha que também merece entrar na conta eleitoral.
Votos divididos?
Depois da eleição, surgiram análises que atribuíram a derrota de Bosco à divisão dos votos entre os candidatos de Araxá. Mas será que a explicação é tão simples?
Bosco recebeu 24.526 votos na cidade. O petista Professor Jales teve 5.031. A conservadora Omara Paolinelli conquistou 3.129. Maria Laura Simão recebeu outros 95 votos.
Agora, a pergunta: quem garante que, sem Jales, Omara e Maria Laura, esses eleitores teriam votado em Bosco? Ninguém.
O eleitor de Omara pode ter escolhido a candidata por sua trajetória na direita e pelo trabalho social e político que desenvolve em Araxá. Já o eleitor de Jales pode ter votado nele por sua ligação com Lula e o PT, ou pelo trabalho que realiza como vereador. São pessoas com ideias, valores e visão de mundo diferentes. Não faz sentido tratar esses votos como se pertencessem a Bosco e tivessem sido desviados para outros candidatos.
E existe um detalhe ainda mais importante. Bosco não perdeu votos em relação a 2022. Ao contrário. Sua votação cresceu tanto em Araxá quanto no restante de Minas Gerais. Portanto, não é correto explicar sua derrota apenas pela presença de outros candidatos da cidade. O resultado também dependeu do partido escolhido, da disputa pelas vagas dentro do PSD e dos votos que Bosco conseguiu conquistar em outras regiões.
Força política
Mas existe outra questão que merece atenção. Bosco contou com o apoio da administração Robson Magela e Bosco Júnior, grupo que governa Araxá com decisões políticas de centro-esquerda.
Nos últimos anos, a população viu essa administração criar quatro novas secretarias e ampliar o número de cargos comissionados. Viu também aprovação de um reajuste dos próprios salários em 33,14%. Depois, o aumento acabou suspenso pela Justiça por ação movida por cidadãos atentos.
Enquanto isso, seguem as reclamações sobre os serviços públicos. Faltam respostas para problemas na saúde, na infraestrutura e em outras áreas que afetam diretamente a vida dos moradores.
É natural, portanto, questionar se o crescimento da estrutura administrativa trouxe melhorias na mesma proporção para a população. E também é legítimo perguntar até que ponto essas escolhas políticas influenciam a imagem dos candidatos apoiados pelo grupo.
Afinal, o eleitor não precisa separar o deputado de seus aliados na hora de avaliar uma candidatura. Pode reconhecer o trabalho de Bosco na Assembleia, mas discordar da administração municipal que o apoia. Pode aprovar algumas de suas ações e rejeitar suas alianças. Ou simplesmente desejar outro representante.
É por isso que o apoio de um prefeito, a participação de vereadores e a destinação de emendas parlamentares não garantem votos. A influência de quem governa tem limites.
A votação de Bosco mostra que ele manteve uma base eleitoral expressiva. Mas essa base não foi suficiente para garantir sua permanência na Assembleia.
Talvez seja mais útil refletir sobre essas escolhas do que procurar culpados entre os candidatos que também decidiram disputar a eleição.
Depois das urnas
A derrota de Bosco muda o cenário político de Araxá. A partir de fevereiro de 2027, ele não ocupará mais a cadeira que conquistou pela primeira vez em 2010. Seu filho, Bosco Júnior, continuará na vice-prefeitura, ao lado de Robson Magela. O grupo permanecerá no comando da administração municipal.
Mas Bosco terá de reorganizar sua vida política fora da Assembleia, depois de quatro mandatos consecutivos. E ainda não se sabe como essa derrota afetará as alianças construídas ao longo dos últimos anos.
Uma coisa precisa ficar clara: a derrota de Bosco não significa, necessariamente, que a população tenha deixado de apoiar a administração Robson-Bosco. Uma eleição para prefeito é diferente de uma eleição para deputado.
Mas o resultado deixa perguntas que não podem ser ignoradas. Qual é hoje a verdadeira força eleitoral desse grupo? Até onde vai a influência do prefeito sobre as escolhas dos araxaenses? E quanto pesam as alianças políticas na decisão de quem vota?
Antes da eleição, foram feitas contas, negociados apoios e escolhidos caminhos para tentar garantir mais um mandato. Só que os eleitores não tinham obrigação de seguir esses planos.
Bosco perdeu a cadeira por 200 votos. É uma diferença pequena, mas suficiente para mudar sua trajetória política. E a explicação não pode se limitar à busca por culpados entre aqueles que também se candidataram.
A política exige alianças, estratégia e capacidade de negociação. Mas também exige reconhecer uma verdade simples: os votos pertencem aos eleitores, não aos grupos que disputam o poder.
No fim, não foram os adversários que decidiram o futuro de Bosco. Foram as urnas. E nelas, quem deu a última palavra foi o eleitor.
Comentários