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Moradia popular vira palanque eleitoral

  • Foto do escritor: Gi Palermi
    Gi Palermi
  • há 8 minutos
  • 3 min de leitura

Robson-Bosco anuncia 160 apartamentos, mira mais de 144 moradias e Câmara aprova projeto em regime de urgência no mesmo dia.


Moradia popular é coisa séria. Quem paga aluguel caro sabe disso. Quem mora de favor sabe disso. Quem cria filho em casa apertada sabe disso. Ter uma casa digna muda a vida de uma família. Por isso mesmo, casa popular não pode virar palanque.


Mas...


Nesta terça-feira (09.jun.2026), a administração Robson Magela e Bosco Junior anunciou um novo residencial com 160 apartamentos pelo Minha Casa, Minha Vida. Segundo a gestão, as unidades serão destinadas a famílias com renda de até R$ 5 mil. A administração também informou que trabalha em outro empreendimento, com 144 unidades para famílias de menor renda. Somados, os dois projetos podem passar de 300 moradias.


A notícia é importante. Muita gente espera por uma chance real de sair do aluguel.


Mas a boa notícia não apaga as perguntas.


Depois de quase quatro anos de mandato, Lula III aparece agora, em ano eleitoral, com anúncios habitacionais em ritmo de urgência. Faltando poucos meses para as eleições 2026, tudo ganha pressa. Tem evento oficial. Tem propaganda. Tem projeto chegando em cima da hora. Tem Câmara suspendendo reunião para votar no mesmo dia. É a velha tática de usar as necessidades reais do povo como vitrine eleitoral.


O anúncio foi feito de manhã em evento oficial no gabinete do prefeito. À tarde, o Projeto de Lei nº 153 de 2026 chegou à Câmara em caráter de urgência durante a reunião ordinária. Para dar tempo de as comissões analisarem a proposta, a sessão precisou ser suspensa.


O texto aprovado autoriza a destinação de uma área verde no Loteamento Novo Pão de Açúcar IV. O terreno tem mais de 19 mil metros quadrados e foi avaliado em pouco mais de R$ 2,1 milhões.


Não é pouca coisa.


O projeto também prevê a troca dessa área verde por outra área no Residencial Portal do Sol. Ou seja, há compensação ambiental. Mas compensação não pode ser só número em papel. A cidade precisa saber se a nova área terá a mesma função, a mesma utilidade e o mesmo valor para a população.


Também há isenção de ITBI e IPTU nas transferências ligadas ao programa. Pode ser legal. Pode estar previsto nas regras federais. Mas continua sendo renúncia de receita. E o contribuinte tem o direito de entender tudo com clareza.


O mais grave não é o projeto existir. O mais grave é a pressa.


Se a proposta é boa, por que não apresentar antes? Por que não permitir debate público? Por que primeiro fazer anúncio político no gabinete e só depois correr com votação na Câmara?


Família pobre não precisa de espetáculo. Precisa de respeito.


O povo precisa saber quem terá direito às moradias. Quais serão os critérios. Quando as obras começam. Quem vai fiscalizar. Qual estrutura o bairro terá. Haverá escola perto? Haverá posto de saúde? Haverá transporte? Haverá asfalto? Haverá dignidade?


Porque entregar apartamento sem estrutura também é empurrar problema para frente.


Na mesma reunião, a Câmara também aprovou o Projeto de Lei nº 92 de 2026, que reduz o Conselho Municipal de Saúde de 16 para 12 membros. A justificativa é melhorar o funcionamento e facilitar o quórum.


Pode até fazer sentido. Mas Araxá vive muitas cobranças na saúde. Por isso, qualquer mudança em conselho de fiscalização precisa ser explicada com calma. Conselho menor não pode significar controle social menor.


No fim, a Câmara aprovou dois projetos importantes. Um mexe com moradia. Outro mexe com saúde.


E a pergunta, mais uma vez, fica: a Câmara está fiscalizando com independência ou apenas carimbando, às pressas, os atos da administração Robson-Bosco?


Casa popular é direito. Saúde pública é direito. Mas transparência também é dever.


Araxá não pode aceitar que projetos grandes cheguem de última hora, embalados por propaganda oficial, com votação corrida e debate apertado.


Quando o assunto envolve dinheiro público, área pública e direito social, a pressa quase nunca ajuda o povo.


Ajuda o poder.

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