Prestação de contas expõe contraste duro
- Gi Palermi
- há 2 dias
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Relatório aponta mais recursos na saúde, mas população ainda reclama de filas para leitos, falta de remédios e espera por especialistas.
No telão, a saúde de Araxá apareceu cheia de investimentos, gráficos e percentuais positivos. Na vida real, falta remédio, há fila de espera por especialista, dificuldade para conseguir leito e profissional da saúde cobrando pagamento atrasado.
Este é o contraste central que ficou sem resposta na audiência pública para apresentar a prestação de contas da Secretaria Municipal de Saúde, referente ao último quadrimestre de 2025. A reunião ocorreu nesta quarta-feira (29.abr.2026) na Câmara Municipal de Araxá.
Segundo o relatório, Araxá aplicou 26,78% da receita própria em saúde em 2025. A lei exige o mínimo de 15%. Em valores, o município informa ter aplicado R$ 148,7 milhões. Isso significa R$ 65,4 milhões acima do mínimo constitucional. O índice também subiu em relação a 2024, quando foi de 22,93%.
No papel, é um número forte. Na prática, ele precisa responder a perguntas simples.
Como pode haver tanto recurso aplicado e, ao mesmo tempo, atraso de repasses para a Santa Casa e para a Casa do Caminho? Como pode haver apresentação de resultado positivo enquanto médicos reclamam de salários atrasados? Como explicar atrasos no pagamento do piso da enfermagem? Como falar em avanço quando pacientes ainda esperam por leitos hospitalares, exames e consultas com especialistas?
Milhões recebidos
O relatório também mostra que Araxá recebeu R$ 21 milhões do Ministério da Saúde no quadrimestre. Desse total, mais de R$ 13 milhões foram para média e alta complexidade ambulatorial e hospitalar. Também houve repasse para atenção primária, vigilância em saúde, assistência farmacêutica e gestão do SUS.
Do Estado, entraram mais R$ 16,4 milhões. Entre os valores informados estão R$ 7,5 milhões para atenção hospitalar, urgência e emergência; R$ 1,1 milhão para atenção especializada ambulatorial; R$ 875 mil para abastecimento de medicamentos; e R$ 403 mil para políticas de assistência farmacêutica.
É aqui que a cobrança fica ainda mais séria.
Remédio em falta
Se houve recurso para abastecimento de medicamentos e assistência farmacêutica, por que a farmácia municipal continua sendo alvo de reclamações constantes por falta de remédios de uso contínuo e medicamentos controlados?
Para quem depende de remédio todo mês, número em relatório não trata doença. O que trata é medicamento entregue no balcão. Quem tem pressão alta, diabetes, depressão, ansiedade, epilepsia ou outra doença crônica não pode ouvir apenas explicação. Precisa de tratamento contínuo. Precisa de segurança. Precisa encontrar o remédio quando chega à farmácia.
O próprio relatório mostra que a Câmara Técnica da Saúde recebeu demandas ligadas a medicamentos, fórmulas e dietas nutricionais. Também aparecem processos judiciais, notícias de fato no Ministério Público, pareceres farmacêuticos e atendimentos do serviço social para demandas como medicamentos, exames, cirurgias e visitas domiciliares. Ou seja: até a prestação de contas confirma que parte da população precisa buscar outros caminhos para tentar garantir atendimento.
Hospitais pressionados
Na área hospitalar, a contradição também pesa. O relatório informa milhões para média e alta complexidade, urgência e emergência. Mas a cidade convive com cobranças sobre repasses atrasados para a Santa Casa e para a Casa do Caminho. Também há queixas sobre atraso no pagamento de médicos e nos repasses do piso da enfermagem.
A pergunta é inevitável: onde o número positivo se perde antes de chegar na ponta?
Espera por atendimento
A audiência também abordou a UPA, os AMEs, o TFD, a vacinação, a reforma da UPA, o SAMU e a espera por especialistas. Ortopedia e neurologia foram citadas entre as áreas de maior demanda.
Esse ponto toca diretamente o cidadão. O relatório pode registrar consulta agendada. Mas a pessoa quer saber quando será atendida. Quer saber quanto tempo vai esperar. Quer saber se a dor será tratada antes de virar caso grave.
O Tratamento Fora de Domicílio também aparece no relatório com grande volume de transporte para cidades como Uberaba, Barretos e Patrocínio. Para a planilha, é transporte realizado. Para o paciente, muitas vezes, é madrugada na estrada, cansaço, medo e dependência total do poder público.
Números importantes
Na atenção primária, o relatório fala em volume expressivo de consultas de clínica geral. Também mostra ações de saúde da mulher, saúde bucal, nutrição, fisioterapia, saúde mental, vigilância, imunização e laboratório municipal.
Na saúde da mulher, foram informadas 2.328 consultas de obstetrícia, 6.858 consultas de ginecologia, 2.603 coletas de citologia e 2.237 mamografias ao longo do ano.
São dados importantes. Mas quantidade não basta. Saúde pública precisa de acesso, continuidade e solução.
O relatório ainda aponta gasto superior a R$ 5,2 milhões com oxigenoterapia domiciliar e mais de 7.500 exames por mês no laboratório municipal, com média de 900 pacientes.
Vida real
Mais uma vez, são números grandes. Mas o cidadão não vive dentro do slide. Vive na fila. Vive no balcão da farmácia. Vive na porta da UPA. Vive esperando ligação da regulação. Vive tentando marcar especialista. Vive buscando resposta quando falta remédio.
É justo reconhecer o trabalho dos servidores da Saúde. Muitos sustentam a rede no dia a dia, mesmo com pressão, cobrança e estrutura limitada. A crítica não é contra esses profissionais. A crítica é contra a distância entre o discurso oficial e a vida real de quem depende do SUS em Araxá.
A prestação de contas mostrou uma saúde cheia de números. A população apresenta outra conta: a da espera, da falta, da dor e da insegurança.
E quando o relatório diz que há dinheiro, repasse, atendimento e estrutura, a cobrança fica ainda mais legítima.
Se a saúde de Araxá vai tão bem nos números, ela precisa ir melhor também na vida das pessoas.
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