Superávit das planilhas não chega à população
- Gi Palermi
- 9 de out.
- 4 min de leitura
Relatório da Fazenda mostra arrecadação recorde e contas equilibradas, mas Araxá enfrenta outra realidade: buracos nas ruas, escolas inseguras e médicos sem salário. O secretário de Fazenda e Planejamento de Araxá, Arnildo Antônio Morais, apresentou nesta quarta-feira (08.out.2025), em audiência pública na Câmara Municipal, o relatório do segundo quadrimestre de 2025 como quem mostra um troféu: arrecadação acima da meta, gastos sob controle, dinheiro em caixa.
Na tela, um cenário de prosperidade. Gráficos coloridos com setas apontando para cima. Segundo os números apresentados, a Prefeitura arrecadou R$ 255,6 milhões, entre maio e agosto de 2025, quando a previsão era de R$ 236,2 milhões — R$ 19 milhões a mais do que o esperado.
O discurso foi de tranquilidade: metas fiscais cumpridas, arrecadação em alta, contas equilibradas. Mas basta sair da Câmara e andar alguns quarteirões para perceber que essa matemática não fecha com a vida real.
O brilho dos slides contrasta com o asfalto esfarelando, os prédios escolares inseguros e a indignação silenciosa dos médicos que seguem sem receber seus salários desde junho.
Falta de caixa
A percepção de crise financeira não parte apenas da oposição. Na última reunião ordinária da Câmara, o vereador Kaká da Mercearia, da base do governo Robson-Bosco, desmontou o discurso do equilíbrio. Em pronunciamento público, declarou:
“Todos sabem das dificuldades financeiras da Prefeitura. Na teoria o projeto do Rodrigo é perfeito, mas a Prefeitura não tem caixa para cumprir.”
Ele se referia ao projeto do vereador Rodrigo do Comercial Aeroporto, que propunha o reajuste imediato do TFD — benefício pago a pacientes que viajam para tratar doenças fora de Araxá. Se o projeto passasse, os cofres públicos municipais teriam um impacto de cerca de R$ 10 mil por ano.
Mas a contradição é evidente: como não há caixa, se o próprio relatório mostra superávit de R$ 19 milhões? A explicação pode estar nos bastidores da contabilidade pública. O relatório mostra o que foi empenhado — o dinheiro reservado —, mas não revela o que foi efetivamente pago.
Na prática, o dinheiro existe, mas ao que parece fica parado na burocracia, enquanto quem depende do TFD segue esperando no balcão do SUS.
Buracos e desculpas
Enquanto o relatório exibe superávit, Araxá está esburacada de ponta a ponta. E não é exagero: em plena época de seca, quando o asfalto deveria resistir, os buracos se multiplicam.
Em pronunciamento público, o vereador Rodrigo do Comercial Aeroporto contou que cobrou explicações do secretário de Obras Públicas e Mobilidade Urbana, Pedrinho da Mata, responsável pela operação tapa-buracos. A resposta foi direta:
“Falta massa asfáltica. Tudo o que compramos não dá pra suprir a demanda”, teria dito o secretário, segundo o vereador.
Mas o relatório da Fazenda mostra que a Secretaria de Obras teve R$ 33,3 milhões autorizados, porém só empenhou R$ 1,8 milhão no quadrimestre. Ou seja: o dinheiro está previsto, mas não foi colocado para trabalhar.
Enquanto o orçamento dorme nas planilhas, as ruas se esfarelam e o cidadão continua desviando dos buracos — e das desculpas.
Escolas em risco
Na Educação, o relatório também exibe dados que, à primeira vista, parecem animadores: a administração Robson-Bosco aplicou 27,85% da receita, acima do mínimo legal de 25%. Mas o Ministério Público de Minas Gerais viu outro cenário e abriu uma ação civil pública contra a Prefeitura depois de constatar que oito escolas municipais estão sem o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) — documento obrigatório para garantir segurança contra incêndios e pânico.
As vistorias apontaram fios expostos, sinalização deficiente e falta de iluminação de rotas de fuga. Enquanto o relatório comemora percentuais, as escolas ainda esperam o básico: segurança.
Médicos sem salário
O caso da Santa Casa de Misericórdia de Araxá é outro retrato doloroso dessa contradição. Pela terceira vez só neste ano, médicos denunciam atrasos salariais. Julho, agosto e setembro sem pagamento.
A direção do hospital confirmou que a Prefeitura não fez os pagamentos previstos no convênio firmado em 2024. O acordo previa R$ 7,3 milhões para custear os honorários médicos. Como os repasses não seguiram a ordem cronológica, os meses estão em aberto.
Enquanto isso, o relatório exibe outro número bonito: 23,1% da receita aplicada em Saúde, acima do mínimo legal de 15%. Mas, na prática, quem salva vidas está sem salário desde junho.
Números frios
Segundo o relatório, a folha de pagamento consome 35,4% da Receita Corrente Líquida, ou seja, ainda se mantém abaixo do limite máximo de 54% previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. E a dívida consolidada do município é de R$ 17,4 milhões, valor considerado baixo para o porte da cidade.
Em resumo, os números indicam que a Prefeitura teria folga financeira e espaço para investir. A dúvida que fica é: se o caixa está equilibrado, o que explica tantos problemas visíveis nas ruas e nos serviços públicos? Talvez falte prioridade, planejamento — ou sensibilidade com a vida real do cidadão.
O papel aceita tudo
O relatório da Fazenda cumpre o papel técnico: mostra que Araxá arrecada bem, paga em dia, aplica o mínimo em áreas essenciais e mantém as dívidas sob controle. Mas o papel aceita tudo. Nas ruas, nos hospitais e nas escolas, a cidade grita outra verdade: o superávit não tapa buraco, não paga médico e não protege criança.
Araxá tem dinheiro, mas parece ter perdido o rumo. Entre os números frios das planilhas e o calor da vida real, há um abismo. E é nele que a população continua caindo — um buraco que nem toda massa asfáltica do mundo seria capaz de cobrir.




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