Rompimento sem fotos e sem sorrisos
- Gi Palermi
- 9 de nov.
- 4 min de leitura
Exoneração de Pedrinho da Mata expõe disputa por espaço e poder na administração Robson-Bosco e revela estratégia política para eliminar um possível adversário na próxima eleição municipal.
A saída de Pedrinho da Mata da Secretaria de Obras Públicas e Mobilidade Urbana não foi apenas uma troca de comando. A exoneração, oficializada na noite de quinta-feira (06.nov.2025) em nota da administração Robson Magela e Bosco Júnior, marca mais um capítulo da disputa interna pelo controle político do Executivo. No lugar de Pedrinho, assumiu interinamente o engenheiro Gustavo Eurípedes de Lima, servidor de carreira da pasta.
Por trás da mudança, há um movimento estratégico para frear o crescimento político de Pedrinho, que nunca escondeu suas ambições eleitorais e já é visto como um nome que poderia ameaçar o projeto de poder do grupo Robson-Bosco no futuro.
Saída sem cerimônia
Diferente da recente saída de Rubens Herbert da Secretaria de Saúde, tratada publicamente com sorrisos e agradecimentos, a exoneração de Pedrinho não teve clima de despedida cordial. Sem reunião no gabinete, sem foto, sem nota calorosa — foi um rompimento seco e direto. Pedrinho sequer foi recebido pelo prefeito Robson Magela e soube da exoneração pelo secretário de Governo, Rick Paranhos.
Nos microfones da Rádio Imbiara, tentou manter a serenidade. Falou em “divergência técnica” e “mal-entendido”, mas deixou claro o incômodo com a forma como foi desligado.
“As opiniões técnicas deixaram de ser respeitadas”, disse, ao confirmar que não chegou a conversar com o prefeito.
Mas a explicação técnica não convence. Pedrinho saiu num momento em que o governo é cobrado por resultados e enfrenta problemas visíveis nas ruas. Apesar da arrecadação recorde e dos números positivos nas planilhas, o dinheiro não tem sido aplicado como deveria.
A Secretaria de Obras teve R$ 33,3 milhões autorizados, mas só R$ 1,8 milhão empenhado. Enquanto isso, os buracos se multiplicam e os prazos das licitações vencem — cenário que aumenta o desgaste da administração e pressiona os gestores da área.
Nos bastidores, a versão é de que o clima vinha azedando há semanas por causa de desentendimentos técnicos. A pressão, segundo fontes internas, partiu do núcleo político que exige inaugurações ainda neste ano, mesmo com os canteiros de obras em ritmo lento e contratos atrasados. Pedrinho teria resistido a essa lógica de “entrega a qualquer custo”.
Mas a presença dele no governo nunca foi apenas uma questão técnica — e ao olhar o jogo político, fica claro que a decisão de desligá-lo foi política e planejada.
O jogo político
A entrada de Pedrinho da Mata no governo Robson-Bosco teve um objetivo político evidente: tirar do caminho um possível concorrente. Pedrinho havia sido pré-candidato a prefeito em 2020 e aparecia nas pesquisas internas com potencial de crescimento. Naquela ocasião, desistiu da corrida e apoiou a chapa Lídia Jordão e Fabiano Santos Cunha contra Robson Magela e Mauro Chaves.
Em 2024, o deputado Bosco o trouxe para apoiar a campanha de reeleição de Robson Magela na chapa em que colocou seu filho Bosco Júnior, como vice-prefeito. O movimento neutralizou uma possível candidatura de Pedrinho e o manteve dentro do grupo. A Secretaria de Obras veio como recompensa pelo apoio. Mas, com o tempo, Pedrinho teria passado a agir como quem queria voltar ao jogo: visitava bairros, aparecia em eventos e falava em nome próprio, dando sinais de que pretendia colocar-se novamente na disputa pela Prefeitura em 2028.
Nesse ponto, a relação deixou de ser conveniente. O grupo, que um dia o trouxe para conter uma ameaça, agora o via novamente como concorrente. A exoneração serviu, então, para evitar que ele se fortalecesse politicamente dentro da máquina pública.
Pressão e prazos
Com as eleições de 2026 se aproximando, cresce a ansiedade dentro da administração. Robson Magela e Bosco Júnior precisam mostrar resultados concretos, mas também manter o equilíbrio entre os grupos que compõem o governo — o que inclui controlar aliados com ambições próprias.
A pressão, segundo fontes próximas à gestão, vem do núcleo político que quer evitar divisões internas e aparições públicas de aliados com discurso independente. Oficialmente, a administração Robson-Bosco se calou invés de dar motivos. Pedrinho falou em “divergência técnica”. Mas, nos bastidores, o que se comenta é que a exoneração foi uma forma de cortar as asas de um possível adversário futuro.
Três forças, um governo
Hoje, a administração Robson-Bosco é formada por três grupos políticos bem definidos. De um lado, o prefeito Robson Magela e o chefe de gabinete Germano Afonso, aliados e amigos do presidente da Câmara, Raphael Rios. Do outro, o grupo do deputado federal Mário Heringer, que comanda a Secretaria de Saúde. E, por fim, o grupo do deputado Bosco, que colocou o filho Bosco Júnior como vice-prefeito e conta com Rick Paranhos na Secretaria de Governo.
Pedrinho, que ocupava a Secretaria de Obras devido ao acordo costurado por Bosco, era o elo do deputado com a infraestrutura da cidade. Sua saída não representa uma perda, mas sim a consolidação do domínio político de Bosco sobre o setor, agora sem o risco de dividir espaço com alguém que pudesse disputar o mesmo projeto de poder no futuro.
Clima de tensão
Nos bastidores, o clima é de desconfiança e disputa silenciosa. Pedrinho teria deixado o cargo por se tornar independente demais dentro do governo.
Enquanto o engenheiro Gustavo Eurípedes assume interinamente a pasta, o cenário político de Araxá segue se movimentando. A cada exoneração, o discurso de “união” que o governo tenta sustentar publicamente soa mais frágil.
E, desta vez, nem o esforço de maquiagem política — tão comum em outras demissões — foi feito.




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